Até ao fim de Abril está na Gulbenkian uma exposição muito interessante sobre Fernando Pessoa. Os poemas, as histórias, os objetos, a vida desassossegada na procura de algo, a inquietação, a insatisfação, a desadequação, a ironia, a mente brilhante, tudo embrulhado em interatividade, luzes e escuridão.
Pessoa nasceu em Lisboa em 1888 e durante a adolescência viveu em Durban, na África do Sul, já que o seu padrasto era aí cônsul. “Ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação”.
A exposição começa por apresentar os heterónimos mais conhecidos (tinha imensos…como se ser quem era lhe limitasse a criatividade). Ao leve movimento da mão no ar, como que passando a página de um livro imaginário, os poemas sucedem-se. Os sons refletem a personalidade do personagem.
Alberto Caeiro nasceu em 1889 em Lisboa e é talvez o mais lúcido de todos. Guardava rebanhos, pensamentos, sensações. Pouco instruído, vê as coisas como elas são. Os poemas de Alberto Caeiro refletem uma consciência universal de procura de paz e de uma consciência maior através do agora e do não pensar (poeta essencial para quem gosta de aprofundar e praticar filosofias orientais e procura algo mais do que o estado de consciência “normal”).
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
(…)
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,
Direi: olhei para as cousas e mais nada.
E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira.
E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas?
Respondo: apenas as cousas... Tu não puseste lá mais nada.
E Deus, que é da mesma opinião, fará de mim uma nova espécie de santo
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
(…)
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
Álvaro de Campos nasceu em 1890 em Tavira e foi estudar Engenharia Mecânica e Naval para a Escócia. Viajou pelo Oriente, experiência da qual resulta o Opiário. Ouvem-se as máquinas enquanto os poemas se sucedem.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Bernardo Soares é um semi-heterónimo, é um Pessoa mutilado do”raciocínio e afectividade”. Escreveu o livro do desassossego.
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Ricardo Reis, nasceu no Porto a 1887, médico e expatriado para o Brasil devido às suas convicções monárquicas. Distinguiu-se pelo seu estilo clássico.
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Fernando Pessoa morreu em 1935, com 47 anos, vencendo enfim a “própria realidade do mundo” através da imortalidade.
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